What Happened, Miss Simone?




A genial e geniosa Nina


Em 2015 a Netflix e a RadicalMedia apresentaram documentário sobre Nina Simone, a cantora/ativista que construiu e destruiu sua carreira com a mesma paixão.

Para quem gosta de documentários e biografias, a de Nina, aliás, Eunice Kathleen Waymon, nascida em 1933, é uma delícia. Abrange 70 anos de história, passando por momentos conturbados, como a Segunda Guerra, luta por direitos civis e Guerra do Vietnan.

Nina nasceu na Carolina do Norte, em 1933, e desde cedo demonstrou talento para a música. Com quatro anos, já cantava na igreja da comunidade pobre onde nasceu; logo em seguida, começou as aulas de piano com uma senhora educada, gentil e branca - algo que a própria Nina costumava relatar como tendo sido um grande espanto, por nunca antes ter visto uma pessoa “tão branca” quanto sua professora.


Ainda criança, começou a notar que as pessoas eram tratadas de maneira diferente, eram “segregadas” por sua pele e por sua condição social. Em uma de suas apresentações musicais, os parentes foram impedidos de participar, de entrar na sala, por serem negros.

Ainda muito nova, começou a entender seu lugar no mundo e como poderia mudar a realidade das pessoas que a cercavam.

Os estudos progrediam, mas ela não conseguiu entrar no melhor conservatório da cidade, porque eles não aceitavam negros. Para conseguir dinheiro, começou a cantar rhythm and blues. Foi assim que chegou a realizar seu sonho – e de sua professora de música – de se apresentar no Carnegie Hall. Infelizmente, não da maneira que gostaria.

O documentário abrange as idas e vindas da cantora, sua carreira e os revezes que viveu; o casamento conturbado, as surras e tentativas de suicídio. A falta de vontade de viver, o abandono da família e, finalmente, o envolvimento com o lado mais radical do movimento pelos direitos civis, fato que promoveu o declínio de sua carreira, porque o radicalismo dela espantava os patrocinadores e investidores, também foi trabalhado no filme.

Com a perda de dinheiro, Nina se torna cada vez mais reclusa, e mais violenta em suas músicas, chegando ao ponto de abandonar a filha única e a carreira. Quando ela se muda para a Libéria, encontra a paz que sempre procurou, paz que dura pouco tempo. Nascida pobre, acostumou-se com o luxo dos áureos tempos; sem o empresário, sem shows, sem a vida que estava acostumada, a depressão se instala. Além do mais, músicos conhecidos não queriam mais se apresentar com ela, que tinha um comportamento instável.

Foi apenas no final da vida, quando já morava na Europa e a carreira estava sendo retomada, que foi diagnosticada com transtorno bipolar. Medicada, cuidada pelos amigos, teve um final de vida digno, não à altura do que viveu nos anos 1960, mas ainda reconhecida e reverenciada como uma voz a ser respeitada, tanto pelo talento quanto pela história de luta e engajamento.

Engajamento que ela mesma reconheceu ter excedido, não por não acreditar na luta, mas por entender que se expôs demais e que essa exposição não ajudou a ninguém, nem mesmo a ela.

A vida pessoal conturbada fez com que se afastasse da filha, que por mais de uma década se manteve afastada da mãe.

Com entrevistas de amigos, conhecidos, fãs, familiares e companheiros de banda, além de trechos de diversas entrevistas da própria Nina, o documentário cobre os anos mais produtivos e a queda da cantora. Sua frustração de não poder ser quem gostaria: uma pianista clássica negra.

Bem pesquisado e produzido, o documentário é uma aula, contada de maneira correta. Por gostar de música, acho que algumas das parcerias dela em shows, gravações e apresentações podem não ter sido bem exploradas. Assim como as músicas foram pouco apresentadas, podia ter havido mais shows, mas isso não invalida a produção.

Nota: 5 estrelas.

Direção: Liz Garbus
Elenco: Nina Simone, James Baldwin, Walter Cronkite mais
Gênero Documentário
Nacionalidade EUA

Sinopse: A vida da cantora, pianista e ativista Nina Simone (1933-2003). Usando gravações inéditas, imagens raras, diários, cartas e entrevistas com pessoas próximas a ela, o documentário faz um retrato de uma das artistas mais incompreendidas de todos os tempos.

Em abril de 2015, surgiu o Conchego das Letras, um blog que fala sobre livos publicados tanto no Brasil quanto os que só são vendidos em sites estrangeiros ou postados em plataformas de leitura gratuitas.

Um comentário

  1. Eu gosto muito das músicas da Nina Simone, mas não tinha ideia de como tinha sido sua vida!
    Gostei bastante do que você mencionou nessa resenha e me interessei pelo documentário!
    beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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