Devaneios da Bel: No Coração da Escuridão



Em um sábado qualquer, navegando em uma rede social, eu me deparei com a crítica de um filme chamado First Reformed, no Brasil é No Coração da Escuridão ou Fé Corrompida.
O filme estava em minha lista de "Preciso assistir" desde 2017; pois é, não foi lançado ontem.
Antes de comentar sobre o filme, vou falar sobre o ator principal:
Como ainda estou sobre o "Efeito Oscar", fico pensando o motivo de Ethan Hawke ter apenas duas indicações como ator - uma como principal e outra como coadjuvante. Impossível negar que ele passa de clássicos do cinema, como Sociedade dos Poetas Mortos e Quiz Show (filme vencedor de vários prêmios), para produções esquecíveis, como Roubando Vidas. Toda essa variação acaba pesando na hora das indicações. Outro fato inegável é que ele não foi parte da “panelinha”, tem um perfil mais para independente. Pena, porque é um excelente ator.
Inegável é o talento, fato comprovado em uma carreira que começou em 1985 e se mantém até hoje, com produções memoráveis e grandes diretores.
Ator, roteirista, diretor, editor, cantor e instrumentista - quem viu a performance em Chet Baker se deslumbra.


Depois de muito procurar, consegui descobrir o filme em um serviço de streaming, pago, para poder comprovar que Ethan continua em grande forma. O filme tem roteiro original e direção de Paul Schrader, roteirista de alguns dos melhores filmes dos últimos 40 anos.

No filme, Ethan interpreta o reverendo Toller, um homem atormentado com sua fé vacilante. Para começo de conversa, esqueça os padres fofos e delicados que habitam o imaginário coletivo. Toller é um homem atormentado por um passado doloroso. Ele já teve esposa e filho. A perda do filho o levou a se alistar no exército, antes de se tornar um “homem de Deus”. Toller duvida, questiona, cai, e quando as dúvidas parecem ser maiores que as certezas, um casal que passa por questionamentos similares aos do reverendo surge.
Sem spoilers aqui, mas Toller começa o filme pensando que não vale a pena viver em um mundo corrupto e hipócrita, só que sua doutrina de fé dificulta a execução de dar fim a própria vida. Já o casal que ele aconselha, não tem o mesmo problema, tanto que o marido, mesmo sabendo que será pai em breve, leva a cabo sua decisão de sair desse mundo, por não suportar mais viver em meio a tanta hipocrisia. Ao se matar, ele abandona a esposa grávida. Sua morte tem uma dupla representação para o filme: o abandono e libertação da vida física; o fim de seu sofrimento terreno, mas também a morte psicológica do reverendo. Se Toller não tinha “coragem” de se matar, a morte de Michael representa uma ruptura com a qual o reverendo precisará lidar.
Como em vários filmes de Schrader, nada é tão simples, há ainda outros olhares. O filho que Michael abandona ao se matar pode ser apenas isso, mais uma criança rejeita pelo pai; ou pode ser um representante da esperança, o marco de que mesmo uma humanidade corrompida e corrupta como a nossa pode se renovar e ter esperanças de dias melhores.
No Coração da Escuridão – ou Fé Corrompida - o novo nome de acordo com o IMdB – não é um blockbuster, assim como não é filme para qualquer pessoa; ele é introspectivo, pesado, contemplativo. Exige paciência e um coração leve, para não se perder na dor e na escuridão de Toller.
Topa encarar?

Nota? Cinco.

Nascida em 1972, em Volta Redonda - RJ, jornalista, escritora, curiosa, observadora e que ama conversar com as pessoas e ouvir suas histórias. Escrever é mais quem um hobby para ela, é um vício. Um bastante saudável até. E para mantê-lo é preciso ler, ler muito e depois ler mais um pouco. Além de assistir muitos filmes e de conversar com muitas pessoas - na fila do banco, do mercado, na pr

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