Devaneios da Bel: Morgana King e as mulheres de Puzo



Pensando sobre livros e filmes eu me dei conta de que sempre preferi histórias com mulheres fortes, mulheres que fazem a diferença, que não são joias bonitas para enfeitar uma prateleira. Então me veio a mente o filme/livro que está na lista dos cinco melhores, na cabeceira, o que leio sempre.

The Godfather

Mario Puzo escreveu o livro e o roteiro (junto com o Coppola). Participou das filmagens, deu pitacos. Ele, Coppola e o elenco construíram um filme machista, de homens, com homens e para homens. Isso em um primeiro e simplista olhar. Porque quem olha mais a fundo e percebe a força do elenco feminino não se surpreende com uma das lógicas do filme: família.

Em todas as discussões – e são muitas – que tenho com amigos que também gostam do filme as lembranças que quase todos – assim como boa parte de quem assiste o filme, mas não é alucinado por ele – têm são as cenas mais emblemáticas, as que sugerem os pontos de mudança de história: a morte de Sonny, o assassinato de Fredo ou quando Don Vito se levanta de sua “cama de doente” para negociar a paz entre as famiglias. Não que eu não goste dessas cenas, mas para mim as mais fortes são outras.


A primeira, a mais forte de todas para mim, é quando Kay Addams, já uma Corleone, descobre que o marido a traiu. Não fez sexo com outra mulher. Foi algo muito pior, muito mais baixo. Para entender como isso é possível é preciso entender quem é Kay Addams. Ela é uma baby bommer. Nasceu entre Guerras, foi criada para ser uma mulher independente, parceira e companheira do marido, não uma bonequinha que aceita passivamente as decisões de seu amo e senhor.

Então quando ela pergunta ao marido se ele era o novo Don e ele nega é a traição suprema. Ele usou os votos do casamento, usou a confiança que os dois tinham um no outro para enganar a esposa da pior maneira possível.

No livro a cena tem uma força muito maior do que na tela, pelo simples fato de que no livro não vemos a cena pelos olhos de Kay, mas pelos pensamentos dela. No livro toda a cena se reduz ao momento em que ela vê os gerentes reverenciando o marido como novo capi, novo Don e então temos os pensamentos, os conflitos, a dor. Temos ainda a força de quando ela o olha e o rejeita com classe e elegância, exatamente como foi criada. Essa cena é magistral (no filme também, porque Diane Keaton foi a Kay perfeita).

Já a segunda cena é tão mais impactante na tela que quase sempre ela passa desapercebida no livro – para mim. O momento em que Connie acusa o irmão Michael de ter matado o marido dela. Talia Shire foi sublime. Se não tivesse um único filme depois ficaria eternizada pela sua italiana tomada de dor. E força. Porque ali estava a força da mulher que luta pelos seus, pela sua família (torta ou não).

Outra cena com mulheres que é importante é a da Mama Corleone “alimentando das tropas”, explicando que é melhor sofrer de barriga cheia. Todas as cenas com Mama Corleone são fundamentais no filme. Ela é o Don de Don Vito. Pouca gente entendeu isso – tanto no filme quanto no livro.


Esse texto gigantesco é apenas para prestar uma homenagem para Morgana Kings, a Mama Corleone, que morreu essa semana. Ela interpretou uma das personagens mais fortes do cinema, não é lembrada, não é citada, não tem – e nunca teve – o destaque merecido, mas era tão fundamental ao livro/filme quanto Don Vito, Don Michael ou Santino.

Obrigada por me mostrar que podemos ser grandes sem perder nossas essência.

Ficha técnica do livro 


Autor(a) Mario Puzo
Título O Poderoso Chefão
Páginas 462
Editora Record
Ano         2012
Assunto Literatura Estrangeira-Romances
Idioma Português

Publicada em 1969, a saga O Poderoso Chefão é, ainda hoje, a mais perfeita reconstrução das famílias mafiosas de Nova York. O carismático Don Vito Corleone é o chefão de uma delas. Apesar de implacável, Don Vito é, essencialmente, um homem justo. Padrinho benevolente, nada recasa a seus afilhados: conselho, dinheiro, vingança e até mesmo o assassinato de alguém. Em troca, o poderoso chefão pede apenas o respeito e a amizade de seus protegidos. Mas ninguém pode vencer as trapaças da idade. Quando todos os seus inimigos resolverem atacar, e seu bem mais precioso, a família, estiver por um fio, o velho Corleone terá de escolher, entre seus filhos, um sucessor à altura.
Mario Puzo constrói, de maneira hábil, um mundo de intrigas, decisões cruéis e honra, num legado de tradição e sangue.

Ficha técnica filme


Data de lançamento: 7 de julho de 1972 (Brasil)
Direção: Francis Ford Coppola
Canção original: Speak Softly Love
Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, Robert Towne

Em 1945, Don Corleone (Marlon Brando) é o chefe de uma mafiosa família italiana de Nova York. Ele costuma apadrinhar várias pessoas, realizando importantes favores para elas, em troca de favores futuros. Com a chegada das drogas, as famílias começam uma disputa pelo promissor mercado. Quando Corleone se recusa a facilitar a entrada dos narcóticos na cidade, não oferecendo ajuda política e policial, sua família começa a sofrer atentados para que mudem de posição. É nessa complicada época que Michael (Al Pacino), um herói de guerra nunca envolvido nos negócios da família, vê a necessidade de proteger o seu pai e tudo o que ele construiu ao longo dos anos.


Nascida em 1972, em Volta Redonda - RJ, jornalista, escritora, curiosa, observadora e que ama conversar com as pessoas e ouvir suas histórias. Escrever é mais quem um hobby para ela, é um vício. Um bastante saudável até. E para mantê-lo é preciso ler, ler muito e depois ler mais um pouco. Além de assistir muitos filmes e de conversar com muitas pessoas - na fila do banco, do mercado, na pr

Nenhum comentário