Devaneios da Bel: Brenda Jackson

 

Faz algum tempo que tenho visto postagens em uma rede social muito usada no Brasil falando que “negros não são comerciais”. São autores, leitores, leitores beta e até revisores que chegam cheios de moral e ideias preconcebidas dizendo que “Histórias com negros como protagonistas não fazem sucesso”, “Histórias com negros na capa não fazem sucesso”, “Histórias de autores assumidamente (?) negros não vendem”.
Confesso que todo esse barulho chamou minha atenção, de maneira negativa, lembrando as declarações de alguns atores sobre “O Oscar é racista e não indica negros”. Imediatamente veio a mente Jesse Willians, Viola Davis, Oprah Winfrey e Denzel Washington afirmando que hoje é melhor do que ontem e que temos – é isso aí, sou negra também – que ter orgulho de quem somos, sem permitir que outras pessoas usem a luta pelos Direitos Civis e as conquistas como palanque, sem que nos façam de vítimas.
Vou traduzir o que entendi dos discursos que gostei: 
Levante e faça algo a respeito ao invés de ser mais uma vítima.
Pensando nisso fiquei me perguntando sobre os grandes autores negros. Desses que vendem milhões de livros por ano.
No Brasil temos alguns bons exemplos de autores de sucesso e que são negros: Carolina Maria de Jesus; Celso Athayde; Conceição Evaristo; Cruz e Souza; Elisa Lucinda; Elizandra Sousa; Fátima Trinchão; Joel Rufino dos Santos; Machado de Assis; Manoel Soares; Maria Firmina dos Reis; Mel Adún e Oswaldo de Camargo.
Temos mais exemplos nos Estados Unidos:


  • Toni Morrison: Autora de escrita forte e pungente marcando seus romances. Em 1993 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura;
  • Colson Whitehead: Autor de livros aclamados, cujo estilo foi comparado a E. B. White;
  • Walter Mosley: Reconhecido por sua literatura policial, cuja principal série trás Easy Rawlins, um investigador privado negro da II Guerra mundial que vive em Watts, Los Angeles;
  • James Baldwin: Primeiro escritor a dizer aos brancos o que os negros americanos pensavam e sentiam. Chegou no auge de sua fama durante a luta dos direitos civis no início da década de 1960. Tornou-se mais famosos pelos ensaios do que pelos romances e peças teatrais, mas apesar disso queria se tornar um ficcionista, considerando seus ensaios um trabalho menor; e
  • Zora Neale Husrton: Antropóloga, folclorista e escritora é um dos expoentes da literatura negra nos Estados Unidos. Seu trabalho por um bom tempo foi relegado ao esquecimento, que obteve apenas postumamente.

Contudo o primeiro nome que veio a minha mente quando comecei a pensar em autores negros foi o de uma “autora menor”, com apenas 20 anos de grandes vendas comprovadas pelos jornais USA Today e New York Times. Uma negra, que escreve para negros, sobre negros, sobre racismo e que usa negros em suas capas: Brenda Jackson.
Por que eu acredito que ela é um sucesso? Acho que 100 romances escritos e mais de 10 milhões de livros impressos – apenas nos Estados Unidos – é um indicativo de que boa de vendas. Além de ter uma indicação ao prêmio da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor – em tradução livre). Parte dos lucros de seus livros são revertidos para uma fundação que fornece bolsas de estudos para estudantes carentes, ou seja, ela retribui o que recebe. Se isso não é sucesso, não sei como definir.
Li vários livros da autora – no final tem um link para o site dela, com relação das obras – e em todos a característica marcante é o olhar do negro para a sociedade. Muito mais do que o olhar da sociedade para o negro. Os personagens de Brenda são ativos, são assertivos, são profundos e fascinantes e mais de 90% deles são negros. Bem-sucedidos, ativos na comunidade. Não há vítimas nas histórias, mesmo que os personagens sofram racismo ou preconceito.
Será que esses autores citados seriam esse sucesso todo se tivessem aceitado a ideia de que "negros na capa não vendem", "protagonistas negros não vendem"? Provavelmente não. O importante é não se deixar levar por opiniões pessimistas, preconceituosas.
Repense suas atitudes. Podemos ter duas atitudes: fazer como esses autores, roteiristas, atores, produtores e criar personagens interessantes, instigantes, amorosos, batalhadores - sejam de que cor for. Ou simplesmente esperar que as coisas mudem por elas mesmas. De qual lado você quer estar?

Mais informações sobre Brenda Jackson AQUI.

PS: Por que os autores nacionais não tem explicação de quem são e quais suas obras? Simples, porque eu quero que vocês pesquisem sobre eles, valorizem os autores brasileiros.

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4 comentários:

  1. Oi, Bel.
    Achei sua postagem incrível e concordo com você: o vitimismo nunca é uma boa saída! Se as pessoas parassem de se fazer de coitadinhas e tomassem as rédeas de suas próprias vidas, o mundo seria muito melhor!
    Mas me permita fazer uma observação. Acho que um problema que deve ser considerado é que muitos bons autores só escrevem literatura de bandeira, se limitando a escrever histórias que mostram seus personagens sendo vítima de preconceito. Esse tipo de literatura é importante?! Claro que é! Mas quem é que disse que a vida dos negros é só luta contra o preconceito?! Por que não escrever uma história de amor com um casal negro, ou uma história de espionagem com um galã negro. Por que não um romance erótico com um CEO negro e poderoso?! Aposto que muito mais gente leria!!
    beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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    Respostas
    1. Concordo com vc, Camila. Eu acho que a cor do personagem é meio irrelevante - para mim e para mais uma penca de pessoas -, mas acho que é extremamente necessário sairmos do gueto e colocarmos pilotos de corrida negros - temos alguns exemplos bem sucedidos, não é mesmo? -, advogados, CEO's, roqueiros - Seal é grande, lindo e famoso, e é negro. Modelos, atores, bailarinos. O que me atraiu na Brenda foi isso, negros são pessoas boas ou não, bem-sucedidos ou não. Mocinhos ou não. Alguns são vítimas, alguns levantam a cabeça e fazem a diferença. Sem bandeiras.

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  2. Ótimo post! Realmente, temos autores negros de grande representatividade tanto na literatura nacional quando na estrangeira, podia fazer outro post citando também os líderes de lutas q atravessaram gerações e conquistaram mt dos direitos universais como Nelson Mandela!

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  3. Então, eu acho que na verdade o assunto em relação à representatividade está um pouco excessivo e bastante batido, por isso enche, mas não deixa de ser verdade e eu penso que vitimismo é um termo usado para calar as pessoas que se levantam para lutarem por seu lugar ao sol. Na tentativa de fazer com que a vítima esteja errada em lutar por seu direito.
    Mas em relação a isso, eu fico com parte do discurso que você citou aqui em relação a se levantar e se posicionar ao invés de ficar no lugar de vítima só reclamando. Agir, e trabalhar para ser melhor a cada dia em qualquer área da vida, é exatamente isso o que devemos fazer, mas não é assim tão fácil, não é assim tão simples.
    Aqui na minha família, por exemplo, minha tia negra, para elogiar meu sobrinho negro, disse que ele tinha traços de branco. Fora as milhares de vezes que ela solta outras insinuações preconceituosas.
    O que eu quero dizer com isso, é que anos de racismo ainda fazem alguns negros sentirem-se ainda inferiores... Não, não somos! Mas essa questão ainda é forte e latente, por isso, ainda que incomode, precisamos fazer com que as pessoas entendam o valor que temos e que há muito nos foi tirado.
    O próprio Machado de Assis que você citou, não gostava de ser chamado de mulato.
    Mas eu amei sua postagem e fico encantada com o seu conhecimento, apesar de entender que ainda são poucos autores negros e que muitos dos nomes dos autores nacionais que você citou, só conheço a Carolina Maria de Jesus, que inclusive ganhou notoriedade a pouco tempo; o Celso Athayde, Cruz e Souza e Elisa Lucinda e, eu posso te dizer que os nomes dos autores brancos que fazem sucesso e vendem milhões de verdade, esses sim eu poderia citar a perder de vista e creio que você também e não com uma lista pequena de sei lá, 10 nomes.
    Mas lógico que eu quero estar do lado de quem faz, quem pratica, ao invés de ficar no lado de quem reclama e “enche o saco” com o fato de não ter negro na capa de livro, ganhando papéis de destaques em filmes, sendo aclamados pelas críticas, vendendo milhares de livros....
    Mas se a gente continuar batendo panela, um dia não vai precisar reclamar, não é?
    Os gays fazem isso direto e ninguém reclama de vitimismo.
    As minorias precisam se tornar minorias ativas, sejam negros, gays, mulheres, religiosos... alçando as vozes e se fazendo presente de forma real e não criando textão nas redes sociais. É isso ai, em partes eu concordo com você! Adorei a postagem!

    Eliziane Dias

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