Resenha: O Espírito da Ilha - Rodrigo Caiado


Título: O Espírito da Ilha
Autor: Rodrigo Caiado
Editora: Chiado Editora
Páginas: 228
Ano: 2016

Pedro está diante de um dilema: dar continuidade ou não aos manuscritos de seu saudoso amigo Alberto?

Retirar o monte de folhas amareladas pelo tempo da gaveta, por si só, perecia um desafio. Talvez fosse inútil rever todos aqueles relatos. Entre eles, poderiam estar as respostas às perguntas sobre as fantásticas histórias acerca de uma misteriosa ilha, ou a verdade de que seu amigo apenas perdia a razão ao creditar verdade àqueles contos de pescadores. Talvez tudo não passasse de um delírio.


Durante a leitura, pareceu-me que, para Pedro, render-se simplesmente àquele chamado, dando continuidade aos velhos escritos, seria abrir mão de sua confortável zona de ceticismo. Pode parecer estranho qualificar como confortável a posição de um homem que duvida de tudo até que se comprove o contrário, mas aquele era o, digamos assim, nicho do advogado que ele era; apenas acreditava no que pudesse ser atestado não somente pela razão e pela lógica, mas também com provas materiais. Porém ele estava decidido a eliminar o impasse, e o caminho pouco convencional que escolheu foi uma partida de xadrez. Os jogadores, no entanto, não passavam de “fantasmas”.

As jogadas inspiradas por Alberto e o mestre Kaparikov, na verdade, o próprio Pedro idealizaria. Isto, de alguma forma e em meu entender, dá ao protagonista certo conforto; assim, mantém o controle da situação. No entanto, não somente por essa razão, o jogo deixará de ter sentido; relegando seu ceticismo, ele percebe que, não obstante o resultado, independente de vencer e ter em mãos o poder de declarar a condenação do legado de seu grande amigo, terá que fazer concessões aos apelos do velho calhamaço engavetado e às sementes plantadas por Alberto antes de falecer.

Eu, pessoalmente, adoro histórias que fogem à linearidade.  A ideia da partida de xadrez como sendo ponto inicial para diversos saltos não só no tempo, mas entre realidade, sonho, fantasia e o sobrenatural foi muito engenhosa, assim como todo o desenvolvimento da trama.

Existem autores que são pura e simplesmente contadores de histórias. Não pretendo desmerecê-los, afinal, contar histórias num texto escrito e que realmente prendam o leitor é um dom. Mas existem outros que não se contentam em ser inventores e são verdadeiros artesãos das letras. A palavra para eles é como o barro na mão do oleiro, e brincar com ela parece mais interessante que tecer a trama em si. Parece ser este o caso de Rodrigo Caiado; pelo menos foi a minha impressão. Ele encontrou uma medida muito harmônica entre o sentido e a forma em minha opinião. Seu texto é esteticamente agradável, sem pecar pelo exagero, pois é de fácil compreensão, além do quê, a história é muito instigante.

Num texto majoritariamente discursivo — Caiado privilegia o discurso indireto —, a obra é construída com toda a formalidade que pede um texto literário, explorando inúmeros recursos. Sua qualidade é indiscutível. 

Um leitor mais apressado, acostumado a textos mais ligeiros, vamos dizer assim, pode demorar um pouquinho para “embalar” com o texto, mas logo algumas iscas muito intrigantes vão sendo deixadas pelo caminho, tornando impossível deixar de explorar a história e descobrir a verdade sobre a ilha, os mistérios que a cercam.
Valeu a pena a leitura e recomendo com toda certeza!




SINOPSE SKOOB: Tudo acontece quando o personagem Pedro, constantemente acometido pela insônia escolhe como entretenimento uma partida de xadrez, representando a disputa por meio de dois oponentes imaginários: Alberto, um falecido amigo seu, jogando com as brancas e Kasparikov, o maior campeão mundial de todos os tempos, com as pretas. Nessas ocasiões, Pedro nunca se esquecia de levar com ele um velho manuscrito que simbolizava um projeto inacabado, com as estórias de relatos fascinantes sobre uma misteriosa e fascinante ilha, reproduzidas por seu falecido amigo Alberto, a partir das revelações inéditas de outros amigos pescadores que Pedro já não via há várias décadas. Porém, com o transcurso da partida, ele se viu forçado a tomar uma decisão imediata que consistia em concluir o manuscrito ou destruí-lo. Assaltado pela dúvida, Pedro resolveu condicionar a decisão ao resultado da partida de xadrez e isso foi determinante para que ele fosse o único a descobrir em apenas uma noite todos os mistérios que se escondiam por traz das estórias fantásticas dos pescadores.

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