Resenha: O amor nos tempos do AI-5 - Ricardo de Moura Faria


Título Original: O Amor nos Tempos do AI-5
Autor (a): Ricardo de Moura Faria
Editora: Novo Século
Ano: 2015
Páginas: 544





Oi, tudo bem?

Eu nem sei como começar essa resenha, já escrevi e apaguei tantas vezes. Vamos lá, né?! Peguei para ler esse livro sem saber o que iria encontrar. Eu tenho mania de não ler a sinopse, mas depois deste livro vou ter que parar com isso.

Sinceramente, odeio traição de casamento. Se a pessoa não está mais feliz com o seu companheiro, então termine e vá curtir a sua vida. Para mim, nesse livro nem foi a traição o que me deixou de "boca aberta", foi a esposa aceitar aquela situação sem nenhuma briga, sem nenhum choque, sem nenhuma surpresa, como aquela fosse a ideia original do casal desde sempre. Quando ela descobriu, só fez três pedidos ao marido Afonso:

1 - não ter nada com a amante dentro da própria casa;
2 - não destruir a família; e
3 - não deixá-la saber das intimidades com a amante. 

Eu vou deixar bem claro que não sou ciumenta, não sou mesmo! Mas ler em uma parte do livro Afonso dizer que a esposa aceitou aquela situação por não ser ciumenta me deixou tipo... "Hein??", "Oi??", "Como assim???"

O autor, não satisfeito com a traição somente por parte do marido, também faz com que a esposa sinta algo por seu colega de trabalho. 

Celina é seduzida por Toninho, mas ela não sabe o que fazer. Eles passam por uma situação dentro do ônibus, ela fica impressionada com a ousadia do colega e fica na dúvida sobre como agir. Ela não tinha uma amiga para conversar, então para quem ela conta todos os detalhes e os seus conflitos? O marido, claro! Afinal de contas, que mulher não vai pedir conselho ao marido quando está em dúvida se deve ou não traí-lo? 


E qual o conselho que ele deu? Aquele que todo homem que se preze daria: seguir o coração dela. Mas, claro, ele não era assim tão submisso, então foi firme e pediu para não destruir a família no processo, da mesma forma que ela havia pedido a ele.

Outra situação que me incomodou bastante foi que a cada virada de página existia uma cena de sexo bem apimentada. No começo era somente o marido que era um foguete, tinha relação com a esposa e a amante, e sempre queria mais. Depois, claro, a esposa relatava todos os seus momentos picantes com o amante. Assim, é formado dois triângulos amorosos, que segundo a sinopse "quebra tabus da época da repressão política em que se vivia o país naqueles anos de chumbo" (?).

Agora falando sério... Uma coisa que realmente gostei nesse livro foi trazer momentos marcantes nos anos de 1971 e 1972, a repressão política que o Brasil vivia no tempo da ditadura militar... Isso sim foi importante para mim, pois não tinha tanto conhecimento e aprendi muito sobre a história do nosso país. Os jovens daquela época passaram por momentos tensos e sombrios, um golpe duro a democracia que fez o regime militar ter tantos poderes.

Também gostei de conhecer algumas músicas daquela época, mostrando a rejeição àquela opressão. O autor tem uma narrativa bem detalhista, que foi muito útil para conhecer essa época marcante (partindo do princípio de que ele foi fiel à história, claro).

Se você ama um romance erótico e não tem esse problema de traição ou relacionamento aberto, vai gostar bastante desse livro. =)

***


Sinopse do Skoob: A trama se desenrola em Belo Horizonte, nos anos de 1971 e 1972. Um professor universitário, Afonso, casado com uma professora de ensino primário, Celina, envolve-se amorosamente com uma aluna, Haydée. Com conhecimento da esposa, o envolvimento transcorre e ela também é seduzida por um colega de trabalho, Toninho. Dois triângulos se formam, portanto e na tentativa de racionalizar o que ocorre, chega-se à conclusão de que essa liberdade amorosa, que quebra tabus, é consequência da repressão política em que se vivia no país naqueles anos de chumbo.


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4 comentários:

  1. Falar sobre traição é sempre tão difícil, porque o que é traição para mim não é para outra pessoa. Não vejo sexo como traição, mas entendo que em nossa sociedade é exigido um pacto de monogamia, aí sexo torna-se traição. Mas cabe o questionamento: pensar em outro é traição? Desejar outro é traição? Para boa parte das pessoas é sim, logo não existe uma única pessoa fiel nesse planeta.

    Complexo.

    Amei sua resenha, fez uma excelente leitura crítica do livro.

    Parabéns.

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  2. Muito interessante sua resenha, Daya. Traição é um tema realmente conflitante, pois as divergências de opinião são grandes e muitas vezes colocar isso em um livro pode ser bem arriscado. Pela sua resenha percebi que o escritor sobe colocar a história e encaixa-la em um contexto histórico, o que nos instiga a querer ler muito mais. Parabéns por defender seus principanos sem desmerecer a obra, engrandecendo a leitura ainda mais. Ao escritor, parabéns! Muito bom!

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  3. Eu gostaria de fazer um comentário a respeito da resenha. Não mandei o livro para a Daya para receber mil elogios. Acho que resenha TEM de ser crítica, apontando o que há de bom e o que há de ruim num livro.
    O que me preocupou na resenha que Daya fez, e já comentei isso com ela, é que o romance não apresenta nenhuma TRAIÇÃO. Eu concordo com ela, TRAIR é terrível, eu jamais admitiria trair minha esposa ou que ela me traísse.
    O que meu romance apresenta é o chamado CASAMENTO ABERTO, muito em voga nos anos 70 (período que o livro mostra), em que relacionamentos com outras pessoas eram do conhecimento dos(das) parceiros(as). Ou seja, se era do conhecimento, não era TRAIÇÃO, se era aceito, NÃO ERA TRAIÇÃO. A liberdade sexual dos anos 70 fica muito clara, e eu a apresentei baseado em vários casais que conheci e que tinham esse CASAMENTO ABERTO, e se davam muito bem. O que eu quis mostrar foi que essa liberdade na cama era o contraponto à falta de liberdade política do período do AI-5. Tirando essa questão, que Daya enfatizou bastante, creio que a resenha ficou legal. Obrigado! Ricardo de Moura Faria

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  4. Entendo que minha resenha tenha sido um tanto diferente do que o que você esperava.

    Eles tinham um relacionamento aberto? Sim, mas a primeira vez foi traição pois não havia aquele conceito de relacionamento aberto como premissa inicial no casamento dos dois. Eles levaram numa boa a traição inicial e transformaram o casamento em um relacionamento aberto? Sim, foi a forma que eles encontraram para permanecerem juntos.

    "Ah, mas na época as famílias eram em estilo patriarcal e mulher não tinha voz e por isso aquele casamento era um símbolo de liberdade contra a repressão política da época "... Verdade, mas apenas parcialmente e tendenciosa. As famílias continuam até hoje com a predominância do estilo patriarcal e a mulher ainda tem bem menos voz do que o homem... Veja as diferenças salariais para um mesmo cargo baseado exclusivamente no sexo de quem o ocupa, como exemplo, e em como toda a sociedade ainda recrimina o homem que fica em casa cuidando dos filhos enquanto a esposa trabalha alegando que "deveria ser o inverso". Isso não foi criado pela política, mas pela religião. Afinal, muito mudou na política durante essas décadas e o tabu continua aí, firme e forte, porém menos escondido.

    Então, realmente não consigo enxergar o relacionamento aberto como um marco assim tão importante em termos de luta política. Contra tabus religiosos? Ok. Políticos? Não concordo.

    Não considero que eu precise ter um relacionamento aberto para ter uma sexualidade saudável e muito menos para combater um governo. Quem quer ter, que tenha... A vida é dessa pessoa e não tenho nada a ver com isso, mas penso que pregar que a sexualidade é explicada de forma plena e saudável apenas pelo casal poder ir para a cama com quem quiser é um conceito muito minimalista da ideia de saúde e plenitude. Assim como é maximizar a importância do sexo para o contexto político. Sexo é tabu religioso e no Brasil, sua existência ou ausência não derruba regimes, repito (a não ser que a amante mate o governante na cama...)

    Essa é a forma como eu vejo, não por falta de conhecimento, mas porque cada pessoa é único e vê as coisas de forma diferente.

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