A Letícia leu: Moll Flanders - Daniel Defoe


Minha edição é de capa dura e ilustrada com as gravuras de William Hogarth: A carreira de uma Prostituta.
Título no Brasil: Moll Flanders
Título Original: The Fortunes and Misfortunes of the famous Moll Flanders
Autor (a): Daniel Defoe
Editora: Abril Cultural
Ano: 1981
Páginas: 358


Olá pessoal, esta é minha primeira resenha no Conchego das Letras e eu gostaria muito de agradecer ao convite para ser resenhista aqui, feito pela Mariana Ramos. De verdade, obrigada Mari!

As minhas resenhas focarão mais nos clássicos da Literatura, tanto brasileira quanto estrangeira, visando, assim, trazer um pouco mais da Literatura Universal até vocês.


Moll Flanders, um clássico da Literatura Inglesa, de autoria de Daniel Defoe, relata as aventuras de uma garota pobre, filha de uma presidiária de New Gate, que teve de ser "esperta" durante toda a sua vida, lutando, assim, pela sua sobrevivência. É considerada a primeira personagem pícara da literatura, o que o torna uma leitura quase que obrigatória para os apreciadores de bons clássicos.




O interessante deste livro é que logo no início, temos um prefácio do próprio autor, falando da personagem principal como se ela fosse uma pessoal real que lhe dera depoimentos de sua vida, tanto que ele diz:

"É verdade que a história original foi narrada em outros termos, e o estilo da famosa mulher à qual nos referimos foi modificado. Principalmente, fizemo-la utilizar, em sua narrativa, palavras mais discretas do que as do original: a cópia que inicialmente veio ter às nossas mãos foi escrita numa linguagem muito semelhante à de qualquer prisioneiro de New Gate e em nada recorda a de uma humilde arrependida, como parece ter sido mais tarde" (DEFOE, p.9, 1981)
Neste trecho, podemos observar que o autor tenta criar um vínculo com a realidade, aproximando Moll do leitor e fazendo-nos "pensar" que talvez ele realmente possa estar a narrar a história de uma mulher que teve uma vida para lá de conturbada. Logo no primeiro capítulo, o qual tratará da infância da personagem, temos um adendo da personagem, pedindo-nos para que a chamemos de Moll Flanders, pois o seu verdadeiro nome não revelará.

A história desta mulher é divida em 3 partes, contendo cada uma delas 20 anos. (três vintenas de anos) Devo dizer que isso conferiu à obra certa dinamicidade e eu adorei a forma franca com que Moll conta todos os seus delitos. A priori, temos uma criança inocente e que vive em más condições numa pensão de uma senhora humilde. Esta criança, um dia, ao acaso, vê uma mulher elegantemente vestida e diz que quer ser como ela: uma dama de sociedade.

Esta mulher, na verdade, ao longo da narrativa, é uma prostituta e Moll cresce com a ideia de se espelhar a esta figura que lhe marcou tanto a infância. Quando a mulher que lhe protegia morre, os infortúnios de Moll se iniciam.

Ela vai morar de favor na casa de uma rica família que possui dois filhos. O mais velho começa a atacá-la e a lhe fazer propostas indecorosas, dando-lhe dinheiro como forma de que vivam como se fossem casados. Porém, diante da paixão da moça, convence-a a se casar com o irmão mais novo, pois ele na verdade só queria se aproveitar dela. O casamento com o irmão mais novo dura cerca de 5 anos e ela tem dois filhos com ele, mas enviúva muito cedo e, de forma bastante natural, eu diria, conta ao leitor que abandonou os dois filhos a fim de se passar por uma viúva rica com o intuito de atrair homens com quem pudesse se casar e garantir sua estabilidade financeira uma vez que lhe parece absurda a ideia de voltar a ser pobre.

Ela consegue o seu intento, casando-se com um comerciante bastante rico, porém, certas circunstancias o levam a falência e ele foge da Inglaterra, deixando Moll para trás. Novamente, ela vai a procura de um marido e se casa com um rapaz que lhe é muito bom e a faz mais do que feliz. Este homem leva-a para a Virgínia, nos Estados Unidos e lhe apresenta sua mãe a qual ela descobre que é sua mãe biológica, tornando o homem seu meio irmão. Horrorizada com a ideia de que tem dois filhos com seu próprio irmão, Moll o abandona e volta para a Inglaterra, deixando todos para trás. Assim, ela vai morar em Bath, em Somerset. Neste lugar, envolve-se com um homem casado por quem nutre uma paixão amena e esperançosa. Moll se faz de pura, inocente e recatada a fim de conquistar este homem. Porém, ele não fica com ela, acaba voltando para esposa e deixando-a com um filho. Ainda nestas idas e vindas, Moll conhece um bancário e o usa a fim de atrair um homem para se casar, e assegurar sua velhice, uma vez que já se encontra com 42 anos.  Porém, acaba atraindo um aventureiro que casa-se com ela a fim de se apossar de seu rico dote, assim como ela planejara. Descobrindo que ambos se enganaram, ela acaba sendo deixada para trás novamente, com mais um filho! Por fim, ela acaba ficando com o banqueiro que morre em ruínas, deixando-a com dois filhos!

Então, encontrando-se na mais completa miséria e já bastante velha para utilizar os seus truques de seduções, Moll começa a arquitetar pequenos furtos e é então que temos sua última fase. De dama de sociedade a ladra. Moll Flanders pode ser considerado um conto sobre o pior do capitalismo, onde o medo da miséria e a ambição por uma classe social fez com que a mulher abandonasse seus filhos, se prostituísse e ainda cometesse incesto.

Não é um livro leve neste quesito, pois causa-nos estranheza a naturalidade com que ela narra os fatos, afirmando que abandonou seus filhos para que não precisasse se preocupar em alimentá-los. Quando ela conhece um novo homem, sua mente arquiteta mil maneiras de atraí-los e nós leitores ficamos perplexos com os pensamentos desta mulher. Porém, como o livro é narrado em primeira pessoa, é fácil tornar-se íntimo de Moll e até mesmo torcer para que seus infortúnios cheguem ao fim.

Os personagens são bem construídos, principalmente Moll, ela é humana. Não tem como contestá-la, nós acreditamos nela e na sua história, o que é um ponto muito positivo. O tempo cronológico é coerente ao psicológico. Porém, achei um tanto quanto exagerado o autor pontuar até mesmo os anos e os dias, levando em consideração que Moll conta sua história depois de velha, ela não teria como lembrar-se com tamanha exatidão as datas em que os fatos aconteceram. Mas isso é apenas uma observação minha.

O espaço é bastante amplo, pois a personagem transita por muitos lugares e, como é de característica do autor, ele os descreve com maestria, possibilitando-nos a visualizar os locais em que Moll esteve. E o melhor de tudo é que não é cansativo. É bastante fluido e eu adorei isso. 

Porém, eu dou apenas 4 corações para este livro, justamente por conta das datas tão exatinhas que ele coloca. Não achei algo muito válido, ainda mais se tratando de memórias. Porém, recomendo a leitura com toda a certeza, pois é um dos meus livros favoritos. Não é carregado de romances inalcansáveis, na verdade, para a época, era um livro muito provável, o que me atrai muito.

Enfim pessoal, acho que já falei bastante! Pois realmente gosto muito do livro, espero que vocês se interessem pela leitura e até a próxima resenha!
Beijos!

CURIOSIDADES:


01 - Para quem não conhece, Defoe é descendente de Holandeses, mas nasceu em Londres no ano de 1660. No início de sua vida, teve muito interesse pela política, alistando-se e lutando ao lado do exército inglês. Durante esta fase, publicou dois livros relacionados ao tema, sendo eles Um ensaio sobre Projetos (1698) e O inglês Legítimo (1701). Permaneceu em constantes conflitos com o governo depois da derrota do duque de Monmouth, ora estando nas boas graças deste e ora sendo preso e exposto, até que decidiu abandonar a literatura política. Por volta de 1720, começou a fazer sucessos os seus livros contendo o personagem Robinson Crusoe, mas somente em 1722, escreve sua obra prima, segundo os críticos, Moll Flanders, o livro que falamos nesta resenha.


02 - Personagem pícara significa, na história da literatura, uma personagem-tipo dos romances e novelas dos séculos XVII e XVIII, surgidos na Espanha, com características daquilo que hoje chama-se malandragem. O pícaro vivia de expedientes, transitando entre as várias classes sociais, das quais hauria seu sustento, enganando por ardis. Noutras, adquire também o papel de bufão.


03 - Vintenas de anos é como o próprio autor chama esta divisão da vida da personagem Moll Flanders.



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7 comentários:

  1. Nunca tinha ouvido falar, como já disse meu tio, não leio muitos clássicos. Mas depois de ler a resenha,esse vai ser o primeiro. Vou colocar na minha lista.

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  2. Letícia, bem-vinda! Bom demais ter você aqui. Assisti o filme, com o Morgan Freeman, muito, muito, muito bom. Agora, depois dessa resenha... Mais um livro na minha lista de "um dia eu terei tempo".

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  3. Primeiro, quero te desejar uma ótima chegada aqui no blog, será muito bem-vinda por todos, tenho certeza.
    Não conhecia o livro. Pela sua resenha, parece muito interessante, mas tenho a certeza de seria um tédio para mim, mesmo que pareça bom. Não curto os clássicos, já li alguns e poucos me mantiveram interessada no enredo até o final.
    Ademais, o post está ótimo! Parabéns!

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    1. É sempre um desafio fazer as pessoas se cativarem pelos clássicos, por isso aceitei ser colunista de clássicos, eu os amo! Devoro tudo hahaha tem alguns mais chatos, tem, mas há muito bons, como esse, em que a leitura flui!
      Espero postar algum que te interesse!
      Obrigada pelas boas vindas.

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    2. Merece!
      Eu sou apaixonada por um, Crime e Castigo, você deve conhecer. É incrível!
      Beijos.

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