Leituras da Mari: Ensaio sobre a Cegueira



Título no Brasil: Ensaio Sobre a Cegueira
Título Original: Ensaio Sobre a Cegueira
Autor(a): José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 312
Ano: 2002
"apesar de"




Olá pessoal,


Hoje trago a vocês um livro no estilo "ame-o ou odeie-o". Isso porque ele não é  de fácil leitura. Não que o conteúdo não seja cativante, porque é - a história é muito interessante e envolvente - , mas porque o autor não se utiliza do básico em uma estrutura escrita que possibilitaria uma leitura mais fluida.

Como assim? Bem, para começar não há pontuação, a não ser por vírgulas, praticamente. As frases se misturam e não há separação de personagens durante um diálogo, o que faz com que o leitor se perca em quem está falando o que em vários momentos. E o vocabulário.... Estruturalmente falando, é definitivamente o livro mais diferente que já li! Daí o "apesar de" e, por este motivo, não foram 5 estrelas. 


Após ter terminado a leitura, comecei também a me questionar: será que esta escrita confusa de Saramago não teve como intento nos deixar tão perdidos, confusos e cansados quanto os cegos que ele relata? Talvez possa ter sido uma forma de nos aproximar ao caos daquele cenário e, ao menos comigo, deu certo.
O livro virou filme em 2008, dirigido por Fernando Meirelles, com Julianne Moore e Mark Ruffalo nos papéis principais (esposa do médico e médico). Trata sobre o acometimento de uma cegueira súbita em pessoas determinadas, que vai se espalhando de forma ainda não completamente compreendida. Em determinado momento, essas pessoas são confinadas em um local afastado - um prédio antigo que estava abandonado há muito tempo - com o objetivo de impedir que elas entrassem em contato com os que ainda não haviam sido infectados e os contaminassem. Neste local eles precisaram aprender a "se virar", organizar-se, alimentar-se, evitarem doenças e acidentes, enterrarem seus mortos... tudo isso sem enxergar, num local completamente estranho para eles e com o encanamento estragado.

Não consigo nem imaginar o tamanho do desespero que poderia se espalhar pela sociedade em uma situação como a descrita pelo autor, ou, pensando bem, depois de descrições tão vívidas, acho que agora eu poderia fazer isso perfeitamente e a visão é bem horrenda.



Na situação em que se encontravam era previsível que as coisas chocantes e absurdamente deprimentes que foram descritas ocorreriam mais cedo ou mais tarde, apesar disso, ler tais cenas não foi menos difícil ou sofrido para mim.

Dentre todos os cegos, havia uma pessoa que enxergava naquele ambiente: a esposa do oftalmologista. Ela, entretanto, não diz para ninguém que ainda consegue ver por medo de ser tirada de perto de seu marido. A pobre senhora vive em um constante conflito interno de "por que eles e não eu?", mas fazia de tudo para ser compreensiva e ajudar a todos sem se denunciar.

"Alguns irão odiar-te por veres, não creias que a cegueira nos tornou melhores, Também não nos tornou piores."

As coisas que essa mulher via... Só não digo que são inomináveis pois são minuciosamente descritas ao longo do livro. É dela aquela que, para mim, é a frase mais chocante de todo o livro.

"(...) talvez eles sejam os sortudos, por não estarem realmente vendo isso"

Um super livro, que mostra o melhor e o pior do ser humano nas mais diferentes situações e faz com que o leitor aprenda um pouco mais sobre a natureza humana, o medo, a força de vontade, a perseverança e, também, sobre si.



Então, o que você faria em uma situação como essas?


***

Sinopse no SkoobUm motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.
O "Ensaio sobre a cegueira" é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".

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10 comentários:

  1. Este é um grande livro, que analisa e expõe muito do ser humano. Gosto muito da frase: "Cegos que vendo, não veem." Que quer dizer simplesmente que mesmo enxergando não prestamos a atenção para ver o que acontece a nossa volta. Show de livro e de resenha.

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    1. Verdade Marco, amei a obra. Vivi um conflito imenso entre querer dar 5 e achar precisava dar 4 pela dificuldade que foi entender quem falava o que e pelo final também, que foi um pouco insatisfatório para mim.

      Ainda assim, é um livro que ensina bastante sobre a natureza humana.

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  2. Amo Saramago, gostei mais do filme do que do livro Ensaio Sobre a Cegueira. Me causou impacto porque esse é o maior medo que tenho, ficar cega. Saramago conseguiu transmitir os medos primais e o início da barbárie quando somos levados de volta ao uso de nossos instintos básicos: sobrevivência em meio ao caos.

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    1. Bel, descreveu muito bem! Esse livro é simplesmente angustiante por ser tão cru e realista.

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  3. Nunca li nada de Saramago, mas parece ser ótimo!
    Vou acrescentar na minha lista e procurar outros livros dele.
    beijos e obrigada pela dica.

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    1. É sim Daya! Leia, você vai cicar chocada, mas aposto que vai amar.

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  4. Estou lendo. Incentivada pela sua resenha. Estou gostando muito; o conteúdo nos faz refletir. Quando terminar a leitura, exponho melhor minha opinião.

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    1. Nossa, que notícia maravilhosa!!! Aguardarei ansiosa o seu retorno sobre o qje achou do livro no final.

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  5. ai eu vi esse filme... chocante!!! se o filme foi tao bom imagine o livro que eu acho os acontecimentos bem mais fortes! eu acho que se eu lesse seria das que amaria!

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    1. Dá uma chance pra ele então Andreza! O estilo de escrita é extremamente diferente, algo que tenho quase certeza que você nunca leu. Arrisca, você vai gostar!

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