Resenha: Os Miseráveis


Título no Brasil: Os Miseráveis
Título original: Les Misérables
Autor (a): Victor Hugo
Editora: Martin Claret
Ano: 2007
Páginas: Vol. 1: 783 / Vol. 2: 624



Sinopse do Skoob: Os Miseráveis - Com a França do século XIX como pano de fundo, «Os Miseráveis» conta uma apaixonante história de sonhos desfeitos, de um amor não correspondido, paixão, sacrifício e redenção, num testemunho intemporal da sobrevivência do espírito humano.

Demorei um tempo para decidir qual seria o livro que escolheria para iniciar minha participação neste blog. Sabia que precisava ser um livro que, além de eu ter gostado muito, deveria ter mexido comigo de um jeito especial. Um livro assim faz você pensar algo novo ou muda um pensamento antigo seu; faz você sentir emoções nunca antes sentidas, ou ficar surpreendido pela obra dizer exatamente o que você pensava sobre algo.

E o último livro que me fez sentir tudo isso e muito mais do que tentarei expor para vocês com minhas humildes palavras, o último a entrar na minha lista de favoritos do Skoob foi "Os Miseráveis". 



A vontade de conhecer cada vez mais os livros clássicos me fez namorar este livro por um tempo. Mesmo com os dois volumes comprados demorei um pouco a entrar nesta longa viagem de 1400 páginas de letras miúdas.

O tamanho da obra é a única ressalva que tenho para fazer sobre ela. Victor Hugo exagera nos detalhes e descrições, chegando ao ponto de interromper momentos críticos da trama para descrever algum local, fato prévio ou personagem. São algumas dezenas de páginas descrevendo os esgotos de Paris, muitas dezenas sobre a Batalha de Waterloo, e outras descrições que parecem intermináveis, ainda mais quando você está envolvido na história. Caso não goste de livros assim, pode parar de ler esta resenha pois este ainda não é um livro para você.

Agora, se você é daqueles que, como eu, não tem medo de calhamaços, irá perceber que as grandes descrições têm um propósito: elas fazem você se sentir na França da época, mostrando alguns dos motivos desta ser uma das grandes nações do mundo atual, através de passagens que falam sobre filosofia, religião e política da época. É só quando essas mega descrições acabam  que se percebe como elas são importantes para a trama, facilitando a compreensão das reações dos personagens, quando a história realmente se desenvolve e você acaba se apaixonando por eles, até mesmo pelos vilões. Ao avaliar uma obra, uma das coisas que mais influencia minha opinião são os personagens. No livro temos ótimas personalidades e irei falar sobre as que mais me tocaram. 


O primeiro a conhecermos mais profundamente é o Monsenhor Bienvenu. Um bispo totalmente diferente da imagem que temos de um homem em sua posição. Charles, seu primeiro nome, é extremamente humilde e altruísta. Ele renega todas as riquezas e pompas e passa sua vida ajudando aqueles à que a ajuda é negada, até mesmo por outros religiosos. Abandonar sua mansão para que ela seja utilizada para ser um hospital é apenas uma de suas grandiosas boas ações. Ele tem um papel importantíssimo no caminho tortuoso do protagonista, mudando a direção do desorientado Jean Valjean. 
"Chega sempre a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia a ação é indispensável".
Os Thénardiers são vilões especialistas em enganar e mentir, fazem da infância de Cosette uma época de trevas e continuam perturbando a vida de Jean durante toda a trama. Marius vive um romance com Cosette, seu amor é lindo e heroico assim como suas ações, mas suas atitudes especificamente com o protagonista são mesquinhas e egoístas, por isso ele entra aqui, no parágrafo dos vilões.

Fantine e Cosette são mãe e filha e nos entregam sensações totalmente opostas. A genitora, para mim a mais miserável num livro cheio deles, aparece sempre sofrendo, sendo enganada, e tratada com preconceito. Cosette é de longe a menos miserável, mesmo sofrendo na infância ela é a parte serena do livro, um  pequeno feixe de luz num céu de nuvens escuras. Ver o terrível forçado Jean Valjean se derretendo e tendo os poucos momentos felizes de sua vida ao lado da pequena cotovia fazem você gostar ainda mais da obra e dos personagens.

Javert é com certeza o vilão mais correto que existe, ele passa o livro inteiro em busca do foragido Valjean, sempre buscando cumprir a lei e sem nunca quebrá-la. Sua tenacidade e seus dilemas entre seguir as regras e seus superiores e fazer o que ele acha correto fazem dele um personagem único e seu final é surpreendente - mas totalmente condizente com o tipo de pessoa que ele é. Os personagens se relacionam em diferentes partes do livro (seria necessário um texto gigante para expor todas), mas as partes do confronto entre os dois são as melhores e é possível dizer que seu antagonismo engrandece aos dois.

A dúvida entre seguir as leis humanas e as leis divinas permeia a vida de Javert, porém ela também sombreia as decisões de vários personagens. As grandes descrições de Hugo nos fazem participar destas decisões e entender melhor os dilemas de cada miserável personagem.

"Verdade ou não, o que se diz dos homens ocupa, por vezes, tanto lugar na sua vida e sobretudo no seu destino como o que eles próprios fazem"
Jean Valjean, é um homem de grandiosa força física, que por roubar um pão para sua faminta família é preso e depois de algumas tentativas de fuga acaba passando 19 anos na prisão. Após uma vida vendo e recebendo tudo que há de pior ele sai da cadeia pensando em fazer o mal e o errado, não importando a quem. Porém ele logo encontra o benévolo bispo que lhe da uma grandiosa lição de bondade. Após este encontro, nosso herói faz fortuna mas vive no fio da navalha, e nos inúmeros dilemas que enfrenta em seu caminho, sempre age da forma mais correta e honrada possível. Muitas vezes surpreendendo o leitor com suas atitudes.

O mestre Victor Hugo tem a intenção de expor os fatos de uma forma ampla. Se algo aconteceu, ele mostra os acontecimentos prévios que o acarretaram e quais acontecimentos futuros ele acarretou, mostra os personagens presentes e como cada um influenciou e foi influenciado a cada acontecimento. Após conhecer Bienvenu, Valjean se enobrece e começa a influenciar as pessoas para o bem, assim como o religioso fez com ele.

É por isso e por muito mais, que você só poderá descobrir lendo, que escrevo sem medo, Jean Valjean se tornou o meu personagem literário predileto. Ganhando de nomes como Sherlock, Uhtred, Cândido, Dorian Gray, Aragorn, Gandalf, Edmond Dantes, Odisseu, Roland de Gilead, Athos, Jason Bourne, Capitão Nemo e Rei Arthur. 

Após muitas coincidências, que dão um ar novelesco à trama, o final é triste, muito triste, como deveria ser um livro miserável, diferente do final feliz dos dois filmes que eu vi - nada que diminua meu apreço pela obra, pelo contrário, este fim só mostra como a arte pode expor a vida de forma sublime. 

Termino este texto com a sensação de que muita coisa ainda deveria ser escrita para conseguir descrever tudo que li e senti ao ler "Os Miseráveis". Porém somente se tivesse o dom de Victor Hugo conseguiria transformar em palavras as emoções, por isso fico feliz se este humilde texto servir de incentivo para que outras pessoas conheçam esta obra de arte, que é uma prova da capacidade analítica e criativa do cérebro humano.


Se depois de tudo que eu escrevi você ainda está na dúvida se lê ou não, veja o que o próprio Victor Hugo disse sobre o livro, no prefácio:

"Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis."

CURIOSIDADES:

01 - São aproximadamente 50 versões para TV e cinema dos mais diferentes lugares do mundo, inclusive Brasil. Alguns musicais e inúmeras versões teatrais. Foi traduzido para praticamente todas as línguas. Estes dados dão uma mostra da importância da obra, que desde seu lançamento foi tratado como um Best-seller. 

02 - O primeiro dos 5 volumes lançados se esgotou rápido, em Paris todas as 7 mil cópias impressas foram vendidas no mesmo dia.


03 - O imperador do Brasil na época, Dom Pedro II, foi um grande fã de Victor Hugo e aproveitou sua viagem a França para tietar o famoso autor. Depois de conseguir visitá-lo algumas vezes, uma amizade foi criada e o famoso escritor sempre que podia elogiava o Imperador do Brasil, um de seus muitos amigos famosos. Victor Hugo teve uma vida digna de um livro seu, cheia de altos e baixos. E, enquanto esteve no exílio relatou, que o único monarca a se lembrar dele foi o brasileiro.





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6 comentários:

  1. Oii !! Cara, curti muito sua resenha.
    Eu tenho medo de pegar esse livro só pelo tamanho kkk Mas a história me interessa bastante.
    Adorei, de verdade, o que você escreveu.
    Ps. Seguindo o blog aqui.

    Abraço!
    mundoemcartas.blogspot.com.br

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    1. Olá Markus.

      Obrigado pelo elogio a resenha e seu comentário. Eu não li os 2 livros em sequencia, li dois livros mais fáceis entre eles para dar uma clareada nas ideias. Mas logo comecei a leitura do segundo pq estava louco para saber o que aconteceria com Jean Valjean.

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  2. wow sua resenha ficou muito boa! ainda nao tenho o livro mas todos falam bem dele e sempre tenho vontade de ler, para tirar minha proprias conclusoes sabe, mas so deu ver o tamanho eu fico c preguiça ate de comprar, mas agora vou tentar da uma chance
    tonsdeleitura.blogspot.com

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    1. Olá Lud

      Valeu pelo comentário e elogio, tente colocar ele na sua lista de leitura, mas não deixe de ler. Eu não falei no artigo mas o livro é divido em 5 volumes, que foi como eles foram lançados separadamente. Tente começar pelo primeiro "Fantine" e intercale com outros livros, assim fica mais fácil derrubar esse gigante. Aposto que quando vc conhecer a história desses miseráveis não conseguirá largá-la.

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  3. Marcola, como sempre você escrevendo muito bem! A resenha ficou ótima e bem resumida frente a quantidade de páginas que esse livro tem (somando volume 01 e volume 02).

    Gostei do enfoque que você deu na personalidade de cada personagem, das citações e, principalmente, das curiosidades! rs É sempre bom saber um pouco mais, fora a história, sobre autor e livro.

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    1. Grande Mari.

      Valeu pelo elogio e pela chance de poder fazer algo que gosto a cada dia mais, escrever, sobre algo que sempre amei, os livros.

      Os personagens são a alma do livro, são por eles que torcemos ou secamos, amamos ou odiamos durante nossa leitura. Acho que por ter personagens tão humanos, e tão grandemente descritos, é que o livro é tão bom.

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