Resenha: Demian


Título no Brasil: Demian
Título Original: Demian
Autor: Hermann Hesse
Editora: Record
Ano: 1997
Páginas: 188





Sinopse do Skoob: Um dos grandes clássicos do autor, relata o amadurecimento de um jovem a partir de sua estranha relação com um rapaz de personalidade misteriosa e sedutora, que muda sua vida para sempre.


Considerada a principal obra deste autor alemão, naturalizado suíço, rendeu o Nobel de Literatura em 1946. O livro possui narrador personagem, ou seja, é todo contado em primeira pessoa, na voz do jovem Sinclair, que muito será influenciado pelo seu melhor amigo Demian. Somos apresentados às suas lutas, medos, conquistas, dúvidas e certezas de uma forma sem igual. Não se iludam, entretanto, pensando que por ser um livro antigo não trará conflitos atuais, pois este é um livro que nos leva a refletir o tempo inteiro.

Esse livro foi, para mim um verdadeiro desafio, pois me senti várias pessoas em uma só ao lê-lo.
Em alguns momentos eu era a criança, que compreendia exatamente a profundidade dos sentimentos, anseios e dores de Sinclair – não por ter tido os mesmos, longe disso, mas simplesmente por ver na criança alguém que sente com todo o seu ser, sem inibições ou a consciência do que poderia ser considerado exagerado ou adequado em termos de sentimentos e realidade.



Em outros momentos me vi como a adolescente e adulta, com conflitos mais profundos e tentativas de se descobrir como pessoa, de assumir a verdadeira personalidade independente dela estar em acordo ou desacordo com o que a maioria achava apropriado. No meu caso não era nada tão profundo como dúvida entre “mundo luminoso” e “mundo sóbrio” (a constante luta interna de Sinclair entre o bem e o mal), mas coisas mais simples como não aderir à ideia quase comum na sociedade atual de que o álcool leva à diversão e de que ir a boates e noitadas demonstram que você realmente cresceu e amadureceu.


Também me vi como:

  • a religiosa - crítica ao conceito de Abraxas e considerando que o rapaz em sua busca teria desvirtuado a real imagem de Deus e acabado por se perder em um Deus falso como fonte de socorro;

  • a preconceituosa - ao interpretar seus relatos sobre o cheiro e o físico de Demian como tendências homossexuais. Por outras vezes cheguei a pensar que se o livro me tivesse dito que ele fumava eu teria alegado que seus sonhos e pensamentos eram fruto de delírios gerado por drogas e substâncias alucinógenas em seu cigarro, mas o livro só falava de bebida, então meu cérebro foi obrigado a abandonar essa teoria por falta de base.
  • a leitora de um livro de fantasia – imaginando que tudo era possível, até mesmos os “chamados psíquicos” que Sinclair relata ter ao longo da história.

  • a leitora que procura a lógica em tudo – vendo como explicação lógica para as “premonições” uma forma de o inconsciente processar e avisar à pessoa tudo aquilo que ela ouviu, viu e aprendeu durante os últimos tempos e que conscientemente não conseguiu processar de forma a realmente perceber o caminho que se estava formando à sua frente.

Associei todos os personagens masculinos como, na verdade, uma pessoa só – como foi sugerido pelo prefácio do livro – sendo Demian quem o autor sempre quis ser, Sinclair quem ele acreditava ser e o organicista, Pistorius, o lado pesquisador dele. Também olhei os personagens como seres completamente diferentes, pessoas únicas com um relacionamento distinto, alguns mais evoluídos emocionalmente que outros, e por aí vai.

Vi Sinclair como carente, maduro, desesperado, sensível, burro, manipulável, inteligente, decidido...

Foram tantos pensamentos, tantos sentimentos muitas vezes completamente contraditórios, surgindo simultaneamente à minha leitura... isso nunca me havia acontecido antes e não apenas me confundiu como surpreendeu e me levou a simplesmente amar esse livro com todas as minhas forças.

"Não creio que se possam considerar homens todos esses bípedes que caminham pelas ruas, simplesmente porque andam eretos ou levam nove meses para vir à luz. Sabes muito bem que muitos deles não passam de peixes ou ovelhas, vermes ou sanguessugas, formigas ou vespas. Todos eles revelam possibilidades de chegar a ser homens, mas só quando vislumbram e aprendem a levá-las em parte à sua consciência é que se pode dizer que possuem uma."



A parte da busca pelo conhecimento de si mesmo e a riqueza dos conflitos emocionais é definitivamente um ponto alto desse livro. Entretanto não sei se é a melhor das ideias lê-lo ou recomendá-lo para os que levam a religião aos extremos.



Bem, é isso. Não foi bem uma resenha mas uma mistura de opiniões pessoais e sei lá mais o quê. Espero apenas que tenha conseguido me fazer entender e, quem sabe, conseguido também despertar o interesse de vocês nessa leitura maravilhosa.rs.

Para quem quiser, o vídeo abaixo apresenta um debate de 1h, feita pelo Café Literário, sobre esse livro:




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4 comentários:

  1. Esse livro parece ser bem complexo... É mesmo ou foi uma impressão minha Mari?
    Não sei se é o tipo de leitura que eu gosto. rsrs

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    1. É mesmo bem complexo, mas vale a pena ser lido, de verdade!!! Também não era o meu estilo de leitura... eu comecei a ler porque era o livro do mês no debate de um grupo, estava super com o pé atrás e não consegui largar. Apaixonei total.

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  2. Não conhecia esse livro, mas parece ser muito bom. Percebi m tom filosófico ao questionar o que pode ser considerado um homem. Parabéns pela resenha.

    www.rascunhocomcafe.com

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    1. O livro é a mais pura filosofia sobre a essência do ser humano, acho que você iria gostar!!

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