Momento Cultura: O Leitor – muito além de um filme


Alguns clássicos do cinema e da literatura não teriam a menor chance em tempos de politicamente correto: Lolita, de Nabokov, não encontraria um único editor disposto a publicar uma obra onde um quarentão deseja sexualmente a enteada de 13 anos (ou algo assim, mas ela era menor). O Último Tango em Paris, não seria produzido pois a mais famosa cena do filme pode ser considerada como apologia ao crime contra a mulher.


Em 1995 Bernhard Schlink escreveu um romance onde um menino de 15 anos conhece e se envolve com uma mulher de 36. Aí os moralistas de plantão vão pular no meu pescoço “Como assim, você vai falar sobre pedofilia?” Não, eu não vou. E podem ficar tranquilos que também não vou incitar nenhum crime. Vou falar de uma obra literária que rendeu um filme lindo, sensível, romântico e extremamente político.



Só para ter uma pequena ideia de quanto o livro e o filme são bons, vamos a uma pequena lista de prêmios: Oscar de Melhor Atriz em 2009, Prêmio BAFTA de Cinema,  Prêmio do Sindicato dos Atores, Globo de Ouro, Prêmio do Cinema Europeu, Critics Choice Award, Vancouver Film Critics Circle Award. Todos esses críticos não podem estar errados, certo?

Sem contar muito do filme, Michael Berg é um jovem alemão com a saúde frágil que é socorrido por Hanna Schmitz ao passar mal na frente da casa dela. Meses depois Michael procura Hanna para agradecer o cuidado e a atenção, mas Hanna é reclusa, grossa e evita contato com as pessoas. Michael a cativa lendo para ela.

E aí vem o grande forte do filme: se você descobrisse que se apaixonou perdidamente por uma pessoa que é acusada de ser carcereira nazista, de ter torturado e matado centenas de judeus, o que faria? O homem Michael, ao reencontrar a então prisioneira Hanna, anos depois do romance chegar ao fim, não a julga, muito pelo contrário, ele a ajuda. E daqui não passo porque senão revelo o final do livro e do filme.

Mas como o filme se chama O Leitor e principal arma de sedução do jovem Michael era ler, o que ele lia para Hanna?

O primeiro livro é a Odisseia, de Homero, que narra as aventuras de Odisseu depois da Guerra de Tróia. Ficou curioso? Cuidado, ele é todo escrito em versos e pode ser meio cansativo.

O livro seguinte é The Lady with the little dog (A Dama e o Cachorrinho), uma das mais famosas obras de Tchekhov. Um conto sem final sobre o amor.

Já o seguinte é uma das coisas mais chatas a que me submeti na vida. Eu li inteirinho, não me arrependo, mas não faria novamente. Livro chato demais: Guerra e Paz, onde Liev Tolstói conta como era a Rússia durante o período de Napoleão Bonaparte. Não recomendo, de verdade. Odeio fazer isso com um livro, mas isso e Doutor Jivago são coisas a serem evitadas. E ele fecha com As Aventuras de Tintin.

Eu sei que muita gente ficou incomodada com a história de um menino se apaixonar e se envolver fisicamente com uma mulher com mais que o dobro de sua idade. Mas assistam o filme antes de julgá-lo depravado e imoral, porque ele é lindo. Ah! Sim, ele tem cenas de sexo. Bem realistas, mas estão dentro de um contexto.

Duas curiosidades sobre o filme? Kate Winslet, que faz Hanna, recusou o papel por conflito de agenda. Duas outras atrizes foram contratadas, mas novamente o conflito de agenda impediu o início das filmagens. Sorte nossa, Kate arrasa como Hanna.

Os produtores Sydney Pollack e Anthony Minghella faleceram antes da conclusão de O Leitor.

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12 comentários:

  1. Eu aaaaaaaaaaaaaaamo esse filme!!!!!!!!! Achei lindíssimo! O meu livro é o da capa do filme. Lolita tá na minha lista, preciso ler.
    Bjks
    www.viciadosemleitura.blog.br

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    1. Eu não amo, mas está na lista de filmes para rever sempre que possível. Bem feito, bem construído. Inteligente e instigante. Quanto a Lolita, aconselho a ir desarmada. É mais insinuação que consumação (isso não é spoiler), mas hoje choca muita gente... E eu tenho vontade de bater na Lolita, porque a peste tem plena consciência do que é e de como jogar... Leitura ótima. Corra para seu livro!

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  2. Oii Bebel, tudo bem???
    Sinceramente, que bom que hoje isso não é aceito e visto com bons olhos. Eu sou chata, então isso me incomoda de verdade. Eu até consigo entender de um ponto de vista histórico: isso era normal e aceito na época. Mas não consigo achar bonito e nem trazer para a sociedade atual :P
    Mas seus comentários são ótimos :)
    Beijooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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    1. O que precisa ser entendido e separado é amor de doença. Existem doentes que só querem, só desejam pessoas (meninos ou meninas) mais novos. Existem pessoas mais novas (idade legal para beber e dirigir) que se apaixonam por pessoas mais velhas. Falo por experiência própria. Aos 16 me apaixonei perdidamente por alguém muito mais velho que eu. E depois dos 38 lidei com um relacionamento em que o menino com metade da minha idade, apaixonado por mim. Pedofilia é sim uma doença. Paixão não é. O filme retrata um envolvimento, em que quem seduz é o menino, que é mais novo. Ele tem consciência do que quer. É bem diferente de pedofilia. Pode assistir o filme sem medo, ou ler o livro. Não tem crime contra menores.

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  3. Que resenha linda, está à altura do filme! Amei mesmo, parabéns!!!!!

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    1. Oi Alê (já posso chamar de Alê?), que bom que você gostou. Realmente o filme é lindo e poético. Mesmo com tantos temas espinhosos. O autor (do livro e do roteiro) foi de uma sutileza ímpar ao retratar um momento tão delicada da vida política de uma nação e do crescimento de um homem. Li em algum lugar, na época do lançamento do filme, que o amadurecimento de Michael é uma comparação ao crescimento da Alemanha. Achei bonita essa sensibilidade.

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  4. Só pra constar. Estou com o livro aqui em casa pra ler já. Fato que não resisti e fui à caça assim que li a resenha. Um filme com tantos prêmios, apesar de tratar de um tema que não é politicamente correto merece ser lido, na minha opinião.

    Parabéns pela resenha Bebel.

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    1. Pois é Mari, como disse na resposta para a Gih, o livro e o filme tratam do envolvimento emocional entre um menino, que é um pequeno homem aos 15 anos. Um menino que viveu o fim da guerra, que tem outros valores e outra visão de mundo e de vida, com uma mulher que sofreu os horrores da guerra. Ele não é induzido, forçado ou manipulado a se envolver com ela. A pedofilia é um doença, é a triste realidade do milhões de jovens pelo mundo, felizmente não é caso do nosso Michael. Ele não cria traumas, não tem raiva da Hanna. Fica o carinho, o respeito pela mulher que olhou o menino e aceitou o homem.

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  5. Oi Bebel, tudo bem?
    Eu gosto deste filme, e entendo muito bem todo o contexto da história.
    Acho que um livro como esse, deveria sim ser lido por todos, e o filme também deveria ser assistido, tem passagens lindas.
    Muito bom seu post.
    Bjus
    Lia Christo
    www.docesletras.com.br

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    1. Lia, obrigada pelo carinho e pelas palavras fofas. A história é uma aula de História, amor, carinho e sobretudo aceitação. A idade passa a ser um mero detalhe.

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  6. Oi, Bebel! Tudo bem?

    Eu gostei muito do filme "O Leitor". Achei super interessante, porém, não li este livro, ali;as, não sabia que havia livro...Hehehe!
    Gostei demais do seu post!

    Bebel, está rolando sorteio no blog Irmãos Livreiros corre lá para participar! Ficarei muito feliz com sua participação! :)

    Beijos!
    Irmãos Livreiros

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    1. Olá Daniel, o livro é um pouco mais denso, você que já viu o filme, provavelmente vai gostar das passagens do julgamento. Eu sempre me surpreendo ao descobrir que alguns ótimos filmes têm livros ainda melhores por trás.

      Vou lá agora dar uma olhada e participar da promoção.

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